Ministério Público de Pernambuco recomenda reintegração de peça em Garanhuns

A Rádio Cultura realizou uma entrevista exclusiva com a protagonista do espetáculo, Renata Carvalho. (Imagem: Divulgação)

O Ministério Público de Pernambuco (MPPE) publicou, no Diário Oficial, uma recomendação para que a Secretaria Estadual de Cultura reinclua a peça “O Evangelho segundo Jesus, Rainha do Céu” na programação do 28° Festival de Inverno de Garanhuns. A apresentação havia sido cancelada no último dia 30, após pressão de setores religiosos do município, reforçada pelo prefeito, Izaías Régis, que se negou a ceder o espaço do Centro Cultural de Garanhuns para que houvesse a encenação.

Ao longo de quatro páginas, o promotor Domingos Sávio Pereira Agra historiou todos os detalhes do caso e determinou que o secretário estadual de Cultura, Marcelino Granja, e a presidente da Fundação do Patrimônio Histórico e Artístico de Pernambuco (Fundarpe), Márcia Souto, readmitam o espetáculo na grade oficial do evemtp e promovam o diálogo com os “eventuais parceiros que mantenham resistência à sua apresentação”, procurando demonstrar o “caráter respeitoso” da obra.

Além disso, o promotor solicitou que sejam realizadas campanhas que estimulem a tolerância e a luta contra a homofobia. A recomendação foi assinada em conjunto com a Comissão de Promoção dos Direitos Homoafetivos do MPPE, que está em funcionamento desde 2012.

O promotor estabeleceu um prazo de dez dias para que haja uma resposta por escrito a respeito da ordem.

A peça

O espetáculo “O Evangelho segundo Jesus, Rainha do Céu” é estrelado pela atriz transexual Renata Carvalho e faz uma releitura de Jesus como se ele vivesse nos dias atuais como uma travesti. Em entrevista à Rádio Cultura, a atriz descreveu a trama e explicou seu objetivo.

“A pergunta do espetáculo é ‘e se Jesus voltasse, nos dias de hoje, como uma travesti?’ Então, a Jo Clifford, que é uma autora escocesa, traz essa hermenêutica de quem seria hoje a população que seria perseguida, assassinada, espancada e coloca a população trans”, declarou.

Para Renata, a desaprovação de alguns grupos com relação à peça traduz o imaginário social em relação à figura da travesti. “O que causa tanto ódio, tanta perseguição à peça é que nós corporificamos Jesus num corpo travesti. Jesus é a imagem e a semelhança de todo mundo, menos de nós, pessoas trans. É inapropriado, é sexualizado. O problema é a imagem que as pessoas têm em cima da travesti”, defendeu.

Segundo ela, esse é o real objetivo da apresentação. “O espetáculo, na verdade, fala exatamente sobre isso. Sobre essa exclusão da população [trans], mas ele fala sobre amor, sobre perdão, sobre tolerância”, explicou.

Por Stephanie D’ávila – 10/07/2018

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