[OPINIÃO] Liberalismo à Brasileira

Uma das contradições mais interessantes do debate político contemporâneo, seja ele presencial ou virtual são as pessoas que se definem como: liberais na economia e conservadores nos costumes. Eles reafirmam essa condição como se fosse um selo de qualidade que atestaria a firmeza da sua orientação política e social.

Muitos desses intrépidos “pensadores” do Instagram, ficam com raiva, quando questionados sobre as contradições aparentes e erros de tal posicionamento. Reagem bravamente, usando o famoso kkkk, ou, chamando quem os questiona de burros, idiotas e ignorantes. Também bradam, em caixa alta, que as críticas são oriundas de comunistas, esquerdistas e gayzistas. Sendo uma verdadeira prova da doutrinação socialista nas escolas e universidades. Parte de um plano macabro de dominação mundial, totalitarista, globalista, autoritário, de destruição das famílias, ateu e por aí segue….

Os que não enxergam as contradições, ou quão absurdo, imbecil mesmo é tal posição: liberal/conservador, só revelam a superficialidade de suas crenças e a deficiência da sua formação. Ambas, fundamentadas em textos rasos da internet, ou pior, de memes. Cheios de frases bonitas, chavões e palavras de ordem, porém vazios de conteúdo ou até mesmo de sensatez.
Mas porque afirmamos isso?

O liberalismo surge na esteira da Revolução Industrial, e pregava a liberação das forças da economia das amarras mercantilismo, o fim dos monopólios da produção e a comercialização beneficiaria a sociedade com mais eficiência, fruto da competividade do mercado e do livre comércio. Mas, também afirmava a racionalidade como guia da sociedade e o direito do individual em fazer suas escolhas e buscar a felicidade e a realização individual.

Defendia o fim dos privilégios de casta, da nobreza e do clero, a igualdade perante a lei, o direito ao voto, a democracia e a liberdade de expressão, de pensamento, de crença, a imprensa livre, a democracia e o estado de direito, com um governo da maioria e pela maioria.
Já os conservadores, são os insatisfeitos, os frustrados com as mudanças sociais do século XIX. Idealizam um passado romantizado e defendiam tradição e os privilégios que estavam sendo questionados. Rotulavam a ciência, o secularismo e a modernidade como fonte de todo mal e pecado e se aferravam a crenças religiosas como guias únicas, ou legítimas, da sociedade.

É interessante ver os ditos conservadores afirmando-se defensores da democracia, e das liberdades individuais. Ou pior, e mais ridículo ainda, que se esse edifício legal foi uma construção sua. Quando na realidade, em todas as Revoltas Liberais do século XIX, os conservadores se opunham firmemente a qualquer mudança e asfixiavam militarmente os pleitos liberais. E foi só com muito sangue derramado nas ruas, dos liberais principalmente, que foram forçados a aceitar, a contragosto, a democracia e as garantias individuais.

Quem mostrou essa contradição aparente de forma mais incisiva foi Hayek no seu livro Caminho da servidão:
Mas o verdadeiro liberalismo distingue-se do conservantismo e é perigoso confundi-los. Embora elemento necessário em toda sociedade estável, o conservantismo não constitui, contudo, um programa social; em suas tendências paternalistas, nacionalistas, de adoração ao poder, ele com frequência se revela mais próximo do socialismo que do verdadeiro liberalismo; e, com suas propensões tradicionalistas, anti-intelectuais e frequentemente místicas, (…). Por sua própria natureza, um movimento conservador tende a defender os privilégios já instituídos e a apoiar-se no poder governamental para protegê-lo.

Mas, essa não foi a primeira vez que criamos uma jabuticaba teórica. No século XIX, enquanto os liberais europeus defendiam, além das liberdades básicas, o fim da escravidão e o trabalho assalariado. Aqui no Brasil, os nossos “liberais” defendiam a manutenção da escravidão. Pois esta liberava as mentes superiores do trabalho braçal e permitia a dedicação à vida intelectual e política.

O que temos no Brasil não são liberais/conservadores ou liberalismo à brasileira, mas sim reacionários, defendendo um passado idealizado e travando o debate político com suas crendices e preconceitos de todos os matizes. São cegos guiando outros cegos, merecedores da resposta de Sobral Pinto. Quando os militares tentavam convencê-lo que não existia uma ditadura, mas sim uma democracia à brasileira. No que, o já idoso defensor das liberdades disse: “à brasileira só Peru”!

Por Mário Benning – Professor e Analista Político

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