[OPINIÃO] A Tradição da Transgressão

João Américo Rodrigues de Freitas

O que é o nosso São João? Essa simples pergunta é o suficiente para acender a fogueira das vaidades e deflagrar um debate histérico na nossa sociedade. De um lado, os puristas e autoproclamados guardiões do “São João Tradicional”, torcendo o nariz contra o modelo atual da nossa festa máxima. Do outro, a realidade nua e crua das ruas.

Há uma defesa apaixonada e quase religiosa pela “tradição”, tratada por esses críticos como uma peça de museu intocável. Eles querem engessar o presente com as molduras de um passado idealizado, ignorando solenemente que o eixo dos desejos coletivos e individuais mudou. Vamos ser diretos, sem meias palavras: a festa é feita para o povo. E a pergunta que os puristas de plantão se recusam a responder é: onde os grandes públicos estão? Estão exatamente consumindo e lotando a festa que esses intelectuais criticam.

O atual formato do nosso São João é, sim, uma transgressão. Mas o que a patrulha do gosto alheio não entende — ou finge não entender — é que em toda transgressão autêntica há uma semente necessária de transcendência.

A tradição pode até se sentir “traída” por essa quebra de regras, mas essa mesma transgressão é o que rompe com o comodismo e dialoga diretamente com as necessidades de quem efetivamente calça a bota, sai de casa e vai viver a festa.

A métrica de sucesso de um São João é a alegria no pátio, e não a opinião dos críticos de pantufas que ficam na sala de casa romantizando uma época que não volta mais.

Transgredir não é um crime cultural; é uma necessidade orgânica. É apenas rasgando o roteiro que o novo nasce e o real se impõe. Muitos fecham os olhos e tapam os ouvidos simplesmente porque a realidade do gosto popular ofende o seu refinamento estético de vitrine.

A grande verdade é que a própria tradição precisa da transgressão para não morrer de asfixia. A preservação exige evolução, pois os acertos de hoje dependem diretamente dos “erros” de ontem.

Como eternizou Belchior, “o novo sempre vem”. Essa mudança será sempre contestada, apedrejada e aviltada pelos conservadores de plantão, mas é exatamente desse conflito que nasce uma cultura viva e pulsante.

Para encerrar o choro e resumir a ópera, recorro à lucidez do rabino e pensador Nilton Bonder, que fulminou esse falso dilema com precisão cirúrgica: “É preciso errar, infringir, violar e transgredir o status quo para que possa haver uma transcendência desejada pela própria tradição traída.”

A tradição não foi assassinada; ela apenas cresceu. Que toquem as sanfonas, as guitarras e os bumbos. O nosso São João, transgressor e imperfeito, está mais vivo do que nunca.

Por João Américo Rodrigues de Freitas
Advogado e professor universitário

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